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terça-feira, 1 dezembro, 2020

A cuidadosa Emília

Conhecida em toda a cidade de pouco mais de 50 mil habitantes, Emília creditava seu nome a um capricho dos pais, fãs da cantora Emilinha Borba. O dono do cartório não aceitou colocar Emilinha na hora de registrar a criança. Então ficou Emília. Emília Aparecida.

Quando fez 17 anos foi estudar na Capital, porque em sua cidade não havia o então curso Normal, que formava professoras. E ela queria ser professora. Na Capital, conheceu homens e mulheres com idéias mais avançadas para a época. A época do rock´n roll, dos hippies, do amor livre, da maconha e das saias curtas. Arrumou um namoradinho que em uma semana a convenceu de ir para cama. Pronto, Emília tinha descoberto outro prazer. Dizem que nunca mais parou de dar.

No meio do curso desistiu de tudo. Passou a cobrar pelo uso de seu corpo. Entre os antigos colegas de classe tinha fama de ser boa de cama. Mulher completa, diziam. Fazia de tudo.

Com os novos clientes, trazidos pelos já conhecidos, o negócio prosperou, e Emília acabou abrindo uma casa de tolerância, como se dizia na época. Mais claramente, um puteiro. E ela era a atração da casa, que funcionava na Boca do Luxo.

Conheceu políticos, empresários e vagabundos. Ganhava presentes extras, com roupas, sapatos, perfumes e até dinheiro, além do pagamento do sagrado michê. Pelo menos uma vez por mês visitava a família em sua cidade. Ia de ônibus para não dar na cara que estava ganhando muito. Vez ou outra levava presentes. Dizia que já estava dando aulas numa escola particular. E a família acreditava.

Numa das visitas foi acompanhada por um sujeito uns dez anos mais velho que ela. Apresentou-o à família como sendo namorado. O pai torceu o nariz, mas o sujeito parecia ter dinheiro de sobra. Até carro ele tinha. E morava numa casa enorme perto da avenida Paulista. E ela não estava mentindo. O sujeito era um cliente apaixonado que queria mesmo se casar com ela.

Duas ou três visitas à família depois, falou que já estava noiva e que tinham marcado o casamento. E o casamento, com direito à comilança e regabofes, seria em sua cidade. Casaram, com festa pra mais de 100 convidados, encantados com o noivo endinheirado e com a professora que dera certo na Capital. A família do noivo não apareceu por única razão – ele não tinha família. Os pais e irmãos haviam morrido num acidente, contava ele.

Dois anos depois o sujeito morreu, e Emilinha juntou ao dinheiro que já guardara a herança do marido. Casa enorme, dois carros, conta no Banco do Brasil, jóias e um guarda-roupa e tanto. No banco era tratada como madame, embora o gerente conhecesse seu passado. E, com o tempo passando, com as contas que insistiam chegar, o dinheiro foi minguando.

Foi então que ela resolveu investir de novo no puteiro. Abriu num na Liberdade, contratou meia dúzia de quengas e aprumou a vida. Mas ela sempre tinha preocupação com sua irmã mais nova, a Rafinha, que o pai achava meio desmiolada. Rafinha usava mini-saia, fumava e trocava de namorado a cada mês. A preocupação do pai chegou à Emilinha numa carta.

Dizia-se preocupado demais com o futuro de Rafinha, com os namorados e suspeitava até que ela já ia para a cama com eles.

Emilinha tomou uma atitude. Escreveu ao pai que iria buscar Rafinha pra morar com ela na Capital. Quinze dias depois cumpriu sua promessa. Alugou um taxi, um Chevrolet Belair, dirigido por um dos frequentadores do puteiro, e foi para sua cidade. Lá ajudou a irmã a acomodar suas coisas no porta-malas e viajaram para a Capital.

O pai ficou tranquilo. Agora sim Rafinha seria bem cuidada pela zelosa irmã. E Emília novamente cumpriu o que prometera ao pai – cuidar de Rafinha. Viveram anos e anos, juntas, trabalhando no mesmo puteiro, sob o olhar vigilante da irmã mais velha.

CHICO MALVADEZA

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