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sexta-feira, 3 dezembro, 2021
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Comércio do Sexo X Coronavírus

Todas as entrevistadas afirmam o mesmo – antes do isolamento social o negócio já não ia bem. Agora piorou de vez. A clientela desapareceu, e com ela, o dinheiro

(*) Os nomes aqui apresentados são os que elas usam em seu trabalho

A situação econômica e o desemprego já afastavam a clientela há meses. Hoje elas só não pararam com o negócio porque se adaptaram. Algumas baixaram o preço do programa; outras oferecem promoções. E em alguns lugares é oferecido álcool em gel para desinfecção das mãos.
Antes é preciso esclarecer algumas coisas. Hoje não são mais chamadas de prostitutas – são garotas de programa, ou GPs, ou ainda escorts. O perfil também mudou. Há muitos anos se prostituiam somente as que não tinham estudo ou profissão. Era como uma necessidade. Hoje muitas são bem instruídas, conscientes e sabem que a carreira é curta, e por isso tratam de aproveitar o máximo.

Prositituir-se não é crime. Crime é explorar a prostituição. É o chamado lenocínio, previsto no Código Penal. Coisa que parece estar em desuso, tamanha a quantidade de casas de massagens – ou clínicas – existentes na cidade. Poucas trabalham por conta própria. Nenhuma usa o próprio nome, e nos anúncios na internet discorrem sobre suas habilidades.

“Do meio do ano passado para cá o movimento já havia diminuído – diz Estela, no ramo há cinco anos. Muitos homens perderam emprego, e como a situação apertou, cortaram a despesa com o lazer”. Ela diz que há dois anos atendia pelo menos dois clientes por dia – hoje não passa de dois por semana. Para piorar, Estela trabalha numa casa de massagens e precisa dividir o que ganha com a dona do negócio, que antes era conhecida como cafetina, que justifica a divisão: “Forneço o lugar, a comida, o chuveiro, as toalhas. Não posso fazer isso de graça, aqui não é casa de caridade, é negócio”.

E por que não trabalhar por conta? “Na casa temos mais segurança, explica Estela. A simples presença de algumas mulheres intimida homens mais violentos ou mal intencionados”. Não é o que pensa Carolina, no ramo há um ano e meio, que resolveu arriscar. Carolina trabalhava como operadora de telemarketing, e há dois anos perdeu o emprego. Com uma filha pequena, e sem conseguir nova ocupação, sobreviveu com o seguro-desemprego.

Levada por uma amiga para uma casa de massagem, começou sua vida de garota de programa. Ficou dois meses. “Era obrigada atender todo tipo de homem pela dona da casa. Tinha nojo de muitos, e ainda por cima dava metade do que eu ganhava para ela”, explica. Carolina saiu da casa, pediu a uma amiga para fazer fotos sensuais – com o próprio celular – e anunciou suas qualidades num site. A freguesia apareceu.

“Mas agora está difícil – diz ela. Muitos dos que foram meus clientes estão trabalhando em casa, e com isso não têm desculpa para sair ou ou chegar mais tarde. O que aparece agora é a molecada que tem algum dinheiro, mas moleque dá muito trabalho”. Carolina diz que nesse seu trabalho independente só teve problema uma vez. “O sujeito estava tão bêbado que não conseguia nada e não quis pagar. Não tive dúvida. Armei escândalo e o pessoal do motel apareceu. Consegui receber”.

Jenifer se considera uma veterana. Está há dez anos no ramo. Diz que faz qualquer negócio. “Nunca me apertei. Já fiz ponto na rua, já trabalhei em casa de massagem, já fui independente”, conta. Mas garante que nunca viu uma crise como atual. “Cheguei a ligar para cliente, que sei que está trabalhando na empresa, e nada. Os que estão trabalhando em casa nem pensar. Dá da mulher do cara atender e aí eu complico a vida dele”.

Josi é um caso diferente. Formada em psicologia, diz detestar ser garota de programa. Só entrou no ramo há três anos por não encontrar emprego. “Diziam que eu não tinha prática em alguns casos; em outros, que eu era qualificada demais para a vaga. Cheguei a fazer ficha para ser caixa em supermercado e não fui aceita. Resolvi ir para o crime”.

Crime, no caso, o mundo do sexo. Com uma amiga recém divorciada, e com outra, separada há anos, alugou uma casa e passaram a atender a clientela. Os anúncios prosperaram na internet, e elas ganhavam dinheiro. Eram sócias, e cada uma tinha sua clientela. “A gente até incrementou a casa, conta ela. Colocamos geladeira com cerveja, televisão na sala, estava uma maravilha. Mas agora, com esse isolamento social, nosso sonho acabou”.

Do começo de abril até o feriado de Tiradentes Josi não atendeu ninguém. Em maio, duas saídas somente. Sem dinheiro, procurou a imobiliária para entregar a casa e foi morar com uma irmã, de favor. “Como garota de programa já corremos riscos suficientes de contrair alguma doença. Mas agora, com esse coronavírus, os riscos aumentaram, e ninguém se aventura. Resumindo: nós falimos”.

“Quando lembro quanto dinheiro ganhei, fico pensando quanto poderia ter guardado. Nos dias de hoje, como todo mundo em casa, minha situação é de dar pena”

A possibilidade de falência é o que preocupa Flor, nascida Florinda no interior do Maranhão. Namorou dos 16 aos 18 anos, mas quando engravidou o rapaz desapareceu. A família não quis conversa, e o pai a colocou fora de casa. Foi morar na casa de um pastor evangélico, que afirmava ter as melhores intenções. Com três meses de gravidez, Florinda abortou. Continuou morando na casa do pastor, onde fazia o serviço doméstico.

Doméstico até certo ponto. “A mulher dele era mais velha e feia, e o pastor acabou se interessando por mim. Me ajudava com dinheiro, roupas novas, sapatos, até que a mulher dele desconfiou. Um dia ela pegou a gente na cama, e aí a vida boa acabou”. Expulsa novamente, Florinda foi para as ruas. Aconselhada por outras mais velhas, passou a fazer programas. Até que um dia um de seus clientes convidou-a a vir para São Paulo, servindo de companhia. Principalmente companhia noturna. Veio para ficar uma semana, acabou ficando até hoje.

Numa boate, aprendeu o que faltava. De Florinda passou a Flor. Na mesma boate conheceu uma amiga, que falava em montar uma casa (ela dizia puteiro) em alguma cidade por perto. As duas se entenderam e vieram para Jundiaí. No começo foi bom, há oito anos. Mas hoje, como as demais de seu ramo sente a falta da clientela.

“Nunca vi um perrengue tão grande, nem quando estava no Maranhão. Já passei fome, já dormi em abrigo e banco de jardim, em banco de rodoviária, e estou vendo que logo tudo isso vai voltar. Não temos saída. Sem cliente não entra dinheiro, e sem dinheiro não dá para fazer nada. Na semana passada, fui almoçar duas vezes no Bom Prato. Era o que o dinheiro permitia”.

Samantha (com th) anuncia seus serviços sexuais na internet. O contato é por WhatsApp e celular. Há cinco anos ganhava o suficiente para pagar aluguel de uma casa de três cômodos, comprar suas roupas e sapatos, ir a festas em fins de semana e a cada dois meses mandava algum dinheiro para a família, no interior de Minas. Diz que já ganhou muito dinheiro, mas que também já gastou muito. “O dinheiro vem fácil e a gente não tem noção de sua importância. Sai e gasta tudo, porque sabe que amanhã vem mais”.

“Colocamos geladeira com cerveja, televisão na sala, estava uma maravilha. Mas agora, com esse isolamento social, nosso sonho acabou”

E veio até certa época. Hoje não vem mais. “Trabalho numa casa com outras cinco meninas. Não existe união entre a gente, e algumas ainda prejudicam o negócio. Tem uma menina que tem mais de 30 anos e se apresenta na internet como ninfeta. Para convencer, coloca fotos que não são delas. Aí, o cliente marca, vai na casa e quando vê quem é realmente desiste do programa. Alguns fazem barraco, e a casa fica mal afamada”.

Sem contar a falta de clientela, outras carregam outros problemas. Yasmin tem 24 anos e é viciada em cocaína. Sem dinheiro, vive crises de abstinência. Ou, para não se abster, faz programa por qualquer preço.

Já troquei um programa por uma carreira, conta ela. Ganhei muito dinheiro há quatro anos mais ou menos, e foi quando conheci a droga”.
A história de Yasmin é parecida com a de muitas outras garotas de programa. Começou fazer sexo por gostar, até que descobriu que podia cobrar por isso. “Todo mundo na minha cidade (interior de Goiás) falava que eu era biscate, então resolvi cobrar. Já que é pra dar, que seja por dinheiro”. Com o tempo, a cidade ficou pequena para ela, e resolveu se mudar para São Paulo. Escolheu Jundiaí por ouvir dizer que tinha muitas fábricas, que era uma cidade rica, que estava muito perto de São Paulo e Campinas. Foi trabalhar na base da cara e da coragem numa clínica de massagem que anunciava em jornal.

“Com três meses tinha uma clientela fiel. Aí num dia apareceu um cara que propôs que as meninas fossem a uma chácara, onde haveria churrasco e mais homens o dia todo. Ele disse que a bebida e a comida era por conta do pessoal dele, e se a gente fosse fazer programa com alguém poderia cobrar. Ele deu um dinheiro – não sei quanto – para a dona da casa, e no sábado marcado apareceu uma van para apanhar a gente”.

A chácara era bonita, tinha piscina e uma casa com muitos quartos, lembra-se Yasmin. Mas aí surgiu a idéia de todo mundo fazer sexo junto, suruba mesmo. Ela nunca tinha passado por isso, tentou ficar de fora, mas convencida por uma coleguinha, acabou criando coragem. A coragem veio do pó. “Eu já tinha bebido um pouco, e aí cheirei. Em pouco tempo estava louca. Naquele dia transei com homens e mulheres”.

Seu desempenho não passou despercebido para os amigos do anfitrião, o dono da chácara. Quase todas as semanas era convidada para outras orgias, desde que levasse suas amigas. E quase todas as semanas cheirava cocaína para criar coragem. De quase todas as semanas, passou a quase todos os dias, e depois todos os dias sem exceção.
“Quando lembro quanto dinheiro ganhei, fico pensando quanto poderia ter guardado. Nos dias de hoje, como todo mundo em casa, minha situação é de dar pena. Não estou me fazendo de vítima, longe disso. Só me arrependo, nada mais”.

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