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sexta-feira, 19 julho, 2024

Baixinho e parrudo

Com dez anos, Tiãozinho era menor que os amigos de sua idade. Na escola era Tiãozinho. Nas brincadeiras, Baixinho. E a brincadeira preferida era na casa do Mané, filho de um português viúvo, que tinha uma empregada que trabalhava até às três da tarde. Deixava a janta pronta e ia embora. Era a hora da molecada brincar na casa. Brincadeira silenciosa. Não se ouvia gritos, coisa típica de crianças. Até que uma vizinha, dona Santina, bisbilhoteira como ela só, resolveu ver o que acontecia.

Entrou com cuidado no quintal da casa do Mané e espiou pela janela. O que ela viu contou para o português à noite e pra metade da vizinhança – a molecada toda de calça arriada, comendo o Tiãozinho. Estavam em quatro. Tinha fila pra comer o moleque, dizia Santina. O português, que tocava uma fábrica de doces, passou a levar o Mané junto consigo no trabalho. Tiãozinho tomou uma surra da mãe quando Santina falou da viadagem do filho. Mas depois que o assunto esfriou, as brincadeiras continuaram na beira de um rio que passava atrás da olaria. Mais escassas. Mas Tãozinho continuou sendo a alegria da molecada.

Os anos foram passando, alguns dos amigos de brincadeiras foram para o quartel, outros arrumaram namoradas, trabalho, e Tiãozinho, dispensado do Exército, entrou para a faculdade. Lá fez novas amizades, muitas femininas, e achou que era hora de caprichar no visual. Foi fazer academia à noite. Ficou fortinho, meio parrudo, e a mulherada dava em cima. As mais gostosas ele comia, as outras dispensava dizendo que tinha de estudar. Vez ou outra frequentava uma boate gay numa cidade vizinha, e lá relembrava os tempos da casa do Mané.

Formado, Tiãozinho fazia sucesso entre a mulherada. Continuou na academia e não deixou de ir à boate. Ganhando algum dinheiro, passou a viajar e fazer novos amigos e amigas. Principalmente amigos. Com o tempo, comprou casa na praia, decorada com uma prancha de surfe na parede. A mulherada, sempre convidada, adorava. Tiãozinho era um bom anfitrião. Vez ou outra comia alguma que ia sozinha ou com amigas. Na maioria das vezes, ficava de olho nos namorados de suas convidadas. Só dava cantada quando sentia que ia rolar alguma coisa.

O tempo ensinou a Tiãozinho que, se quisesse manter as aparências, precisava por ordem nas coisas. Então resolveu – no trabalho vida normal, na praia, só os amigos de cama. Com vida social razoável, um dia Tiãozinho foi convidado para ir a uma festa de aniversário. Foi e levou uma amiga, uma das mais gostosas de seu tempo de faculdade. Na festa, encontrou velhos conhecidos, alguns indiscretos demais para seu gosto. Até que dona Santina, apoiada numa bengala, foi direta ao assunto, na presença da amiga: E aí Tiãozinho? Tá com namorada? Deixou de ser viado? Ele não sabia o que fazer. Passou mal até e pediu licença para ir ao banheiro. Sozinha com a amiga, dona Santina foi aos detalhes.

A amiga, também nada discreta, tratou de espalhar a notícia. Tiãozinho era enrustido, dizia ela. No trabalho ninguém tinha coragem de perguntar se era ou não verdade a história. Para confirmar sua condição, Tiãozinho passou a ser mais agressivo, mais macho. Qualquer coisa ameaçava, chamava pra briga. Profissionalmente não era aquelas coisas, mas tinha costa quente – o patrão era um de seus parceiros de praia. Patrão de meter medo – grandão, valente, treinado em artes marciais e pra ajudar, casado.

Há alguns anos, dona Santina passou mal e foi levada para o hospital. Muita gente foi visitá-la, mas sem esperanças de ouvir novas fofocas. Ela morreu no domingo de manhã. No sábado à tarde, a mãe de Tiãozinho fez as vezes de visita. Foi a última coisa que ouviu de dona Santina: Fala pro seu filho parar de dar a bunda. Não adianta ser o baixinho parrudo e queimar a rôsca.

CHICO MALVADEZA

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