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sexta-feira, 19 julho, 2024

Caiu na boca da Lazinha…

A desgraça de dona Vanda foi que sua história caiu na boca da dona Lazinha, outrora comadres confidentes, depois inimigas mortais. E em cidade pequena a notícia corre rápida. Mulher até então vista como um exemplo de comportamento, dona Vanda  passou a ser vista como aquela que dá pra todo mundo. Ela e Lazinha moravam no mesmo bairro. Lazinha tinha uma quitanda. Passava o dia no balcão atendendo a freguesia e contando as novidades. E se informando das últimas fofocas que lhe eram trazidas. Quando tinha tempo livre, usava o telefone, e foi assim que a encrenca começou.

Numa tarde, Lazinha ligou para uma freguesa para fazer cobrança de um fiado. Fiado de caderneta cheia. Só que cruzou a linha, e espertamente, ela ficou ouvindo a conversa. Teve até o cuidado de tapar o bocal. Era um babado de primeira – dona Vanda marcando encontro, e pior de tudo, com o pastor de uma igreja de crente de outro bairro. Na conversa ouvida com atenção, nenhum detalhe escapou. Hora, lugar do encontro e a garrafa de vinho, por conta do pastor. Lazinha não aguentou a curiosidade e foi conferir a traição aos princípios da moral e bons costumes.

Viu quando Vanda entrou no carro do pastor, um fusca branco, comum até. De longe, escondida atrás de uma árvore, parecia até sentir o perfume da traidora. E então, depois que sumiram de vista, Lazinha foi dar plantão perdo da casa de Vanda, que chegou quase sete da noite, já escuro, e meio desarrumada. No dia seguinte, não faltou assunto na quitanda. No dia seguinte, metade da cidade já sabia da história. E a história chegou aos ouvidos de dona Vanda, que puta da vida, foi tirar satisfações com dona Lazinha, que confirmou tudo. Confirmou e falou que ela era uma vaca, uma cadela, e que se fosse ela se mudaria de cidade.

Dona Vanda procurou o amante-pastor, que também já tinha ouvido a história. Propôs que fossem morar juntos em outro lugar, longe da língua de dona Lazinha. O pastor falou que isso não era possível, pois era casado, e a família morava numa cidade perto. Disse também que sua mulher era doente e que não poderia abandoná-la daquele jeito. Citou até salmos e versículos da bíblia. Dona Vanda entendeu tudo – o pastor era como todos, que só aproveitava a mulherada, que não ia assumir nada, e ela que se fodesse. Assim mesmo: você que se foda, deu porque quis.

Na semana seguinte encostou o caminhãozinho de mudança e dona Vanda se foi. Pegou carona na boléia – motivo para dona Lazinha espalhar que tinha pago o frete no meio do caminho, num meio de mato, e que o motorista voltaria mais vezes. Dona Vanda foi morar numa cidade maior, a quase cem quilômetros da fofoqueira, que quando não estava na quitanda punha os cotovelos na janela para ver o que se passava na rua. Dois anos depois, com a vida refeita na cidade grande, dona Vanda abriu seu negócio. Um bar, que tinha quartinhos nos fundos. Um puteiro com cinco contratadas fixas. A baiana era uma das sensações do bar. Não perdia um cliente. Faturava bem e fazia seus clientes beber até.

Um dos muitos vendedores, que na época viajavam muito para mostrar suas mercadorias, acabou parando no bar de dona Vanda e gostou da brincadeira. Fez amizade com a dona, que ficava no caixa. Descobriu que a lâmpada em cima do caixa ficava ligada na mesma fiação do chuveiro – assim que a lâmpada enfraquecia a luminosidade, dona Vanda anotava e cobrava, no fim da noite, da mulherada de vida torta. Ou a quenga ou o cliente usavam o chuveiro. Contabilidade tôsca, mas garantida. Não escapava nada.

E esse vendedor um dia chegou à cidade de dona Lazinha. Parou na quitanda para comprar fósforos, e como dona Lazinha puxou o papo, ficaram conversando. Até que falou do bar da cidade grande. O nome da dona? Todo mundo chama a mulher de dona Vanda. Ela é a dona do puteiro. Lazinha se fez de morta, e assim que o vendedor saiu foi ao telefone. No dia seguinte, repetiu a história no balcão da quitanda. O pastor ficou sabendo e foi se informar. Lazinha contou tudo. Tim-tim por tim-tim. Acrescentou até algumas pitadas mais picantes. O pastor estava inconformado. Aquela que fora sua amante agora era dona de puteiro. Estava se entregando a quem pagasse. E além disso, ainda era cafetina de outras cinco quengas.

Dona Lazinha consolou-o, e do alto de sua sabedoria sentenciou: ser puta é uma vocação, um chamado do inferno. A quitanda não existe mais. Foi demolida para dar lugar a uma casa. Dona Lazinha conseguiu se aposentar e aí foi a desgraça – sobrou mais tempo para ela contar suas histórias. E cada história…

CHICO MALVADEZA

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A Editora Urbem faz parte do Grupo Novo Dia e edita livros de diversos assuntos e também a Urbem Magazine, uma revista periódica 100% digital.
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