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terça-feira, 28 maio, 2024

Vigilância é capaz de prever epidemia de chikungunya, aponta estudo

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Conhecido por desencadear epidemias em grande escala – algumas vezes mais impactantes que as provocadas pelo vírus da dengue -, o chikungunya também pode se manifestar de maneira menos agressiva.

Um estudo conduzido por pesquisadores da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp) revelou que o vírus circulou de forma discreta na cidade do interior paulista por vários anos, inicialmente gerando poucos casos da doença e gradualmente aumentando sua incidência. Essa descoberta destaca a importância de medidas de vigilância epidemiológica para antecipar potenciais epidemias.

“A circulação silenciosa do chikungunya pode preceder epidemias em larga escala, afetando uma grande parcela da população e tendo um impacto significativo na saúde pública e na vida das pessoas. Os resultados de nossa pesquisa, portanto, destacam a necessidade urgente de conduzir estudos epidemiológicos e genômicos, além de implementar medidas de monitoramento de mosquitos e vigilância epidemiológica. Essas ações podem permitir uma preparação antecipada para uma eventual epidemia de chikungunya”, alerta Maurício Lacerda Nogueira, professor da Famerp e autor do estudo publicado na revista PLOS Neglected Tropical Diseases.

Nogueira destaca que o novo padrão de circulação do chikungunya, identificado no estudo realizado no interior paulista, não reduz sua ameaça à saúde pública. “O chikungunya ainda demanda a criação de uma estrutura de saúde dedicada ao tratamento de uma doença que causa sérias complicações para os infectados. A fase crônica da doença, caracterizada por dores articulares, é altamente debilitante e pode persistir por anos. Além disso, o risco de futuras epidemias permanece elevado; apenas descobrimos que elas podem ser mais previsíveis”, afirma o pesquisador.

Financiado pela FAPESP, o estudo acompanhou 341 indivíduos residentes do bairro Vila Toninho, em São José do Rio Preto, ao longo de quatro anos (de 2015 a 2019).

Este trabalho faz parte de uma pesquisa mais ampla, também financiada pela FAPESP, que acompanhou, por meio de amostras de sangue, infecções por dengue, zika e chikungunya em São José do Rio Preto. Além disso, os pesquisadores utilizaram dados oficiais sobre a presença do vírus em mosquitos na cidade.

Doença silenciosa

De acordo com dados do município, apenas 41 casos de chikungunya foram confirmados entre os anos de 2015 e 2019 em São José do Rio Preto, que possui uma população de 470 mil habitantes. Entretanto, as amostras de sangue coletadas durante o estudo da Famerp realizado no mesmo período revelaram que a proporção de casos de infecção por chikungunya (soroprevalência) aumentou de 0,35% no primeiro ano para 2,3% após três anos de acompanhamento.

Além disso, os pesquisadores analisaram 497 amostras de sangue coletadas de indivíduos com suspeita de dengue durante o surto de 2019. Dessas, 4,4% foram diagnosticadas com a doença ou haviam sido infectadas recentemente (IgM positivo), enquanto 8,6% já haviam sido expostas ao antígeno em algum momento da vida.

“Queríamos entender por que ainda não havia ocorrido uma grande epidemia de chikungunya na cidade, mesmo sabendo que o vírus estava circulando. Identificamos que, além do número de infecções não ser tão elevado quanto em outros locais, trata-se de uma doença muito subnotificada. Isso se deve à alta taxa de casos assintomáticos, como constatado em nosso estudo, e à possibilidade de confusão no diagnóstico com a dengue”, explica o pesquisador à Agência FAPESP.

Nogueira esclarece que os sintomas das fases agudas são muito semelhantes entre as duas doenças: febre alta, fadiga, dor no corpo e desidratação. A diferença é que, na dengue, pode ocorrer dor na parte de trás dos olhos.

A infecção por chikungunya é caracterizada por febre aguda acompanhada de dores articulares, que podem variar de leve artralgia (dor em apenas uma articulação) a poliartrite intensa e debilitante que pode persistir por meses ou até anos. Estudos anteriores indicam que as infecções assintomáticas podem representar até 25% dos casos.

O vírus chikungunya foi introduzido no continente americano em 2013, desencadeando epidemias significativas inicialmente em diversos países da América Central e do Caribe. Desde então, mais de 900 mil casos de infecção pelo vírus foram confirmados no Brasil até 2020.

No segundo semestre de 2014, o Brasil confirmou, por métodos laboratoriais, a presença da doença no Amapá e na Bahia. Em 2023, houve uma grande disseminação territorial do vírus, e atualmente, todos os estados brasileiros registram transmissão do arbovírus.

“É um equívoco pensar que uma epidemia será igual em todos os países. Estudamos casos de epidemias na Ásia, em lugares como Cingapura. No entanto, o Brasil é um país muito vasto, com várias arboviroses circulando simultaneamente. Portanto, é algo mais complexo de se analisar. Uma única epidemia pode, na verdade, ser composta por várias ocorrendo simultaneamente. Por isso, mais uma vez, destaco a importância de uma vigilância sanitária robusta”, enfatiza.

O artigo “Cryptic circulation of chikungunya virus in São Jose do Rio Preto, Brazil, 2015–2019” pode ser acessado em: https://journals.plos.org/plosntds/article?id=10.1371/journal.pntd.0012013.

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