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sábado, 13 julho, 2024

Número de acidentes com motociclistas aumenta

Por trás de cada entrega de lanche ou compras há risco de morte. A grande maioria dos pedidos de delivery atravessa a cidade nas costas de motoboys e motogirls, os trabalhadores mais vulneráveis do trânsito. Eles dividem espaço com veículos que pesam toneladas e trafegam em altas velocidades, com pouca proteção, além do capacete. Outro problema está na falta de apoio. Raramente conseguem apoio financeiro após um acidente em que precisam ficar meses ou até mesmo anos afastados do trabalho.
Para quem pilota motos, seja para o trabalho ou transporte próprio, o primeiro semestre tem dados preocupantes. Segundo levantamento no sistema DataSus, do Ministério da Saúde, houve aumento de 14% no número de motociclistas internados no Sistema Único de Saúde (SUS) nos quatro primeiros meses de 2024, em comparação com o mesmo período de 2023. Foram 50.248 internações, contra 44.050 em janeiro, fevereiro, março e abril de 2023.
Ao todo, no ano passado, 141.890 motociclistas foram hospitalizados no SUS, a média de 289 por dia. Considerando apenas o Distrito Federal, foram 771 internações até abril, contra 591 no mesmo período do ano passado — aumento de 30%. Em 2023, o total foi de 2.087 hospitalizações.
Ainda não foram divulgadas informações sobre as mortes de motociclistas no ano passado. Em 2022, foram 12.058 óbitos. Ou seja, todos os dias morreram 33 condutores, em média, nas ruas e rodovias do país. Muitos deles estavam trabalhando como entregadores ou mototaxistas. Cada número corresponde a uma família, que perdeu um pai, uma mãe, um filho e, muitas vezes, a principal renda da casa.
Além da perda de vidas, é importante considerar o impacto dos acidentes para os cofres públicos. A negligência com o trânsito, especialmente, sai caro. Cada internação em 2023 custou a média de R$ 1.561,31, com gasto total de R$ 221,5 milhões no ano. Até abril, foram gastos R$ 80,5 milhões, segundo o Ministério da Saúde. O dado corresponde apenas com o tratamento das vítimas.
Faltam dados e estudos atualizados sobre o impacto total no erário, incluindo para a Previdência Social, seguros, e o custo para a produtividade do país. As estimativas mais recentes foram publicadas em 2020. De acordo com um levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), publicado em junho daquele ano, o Brasil perde um total de R$ 50 bilhões anualmente com as colisões.
De acordo com o instituto, um único acidente nas rodovias federais custa R$ 261.689 ao país, e pode chegar a R$ 664.821 quando há morte. Em um ano, o valor total foi estimado em R$ 12,8 bilhões. Nas rodovias estaduais e municipais, o custo chega a R$ 30 bilhões. Nas cidades, fica entre R$ 10 bilhões e R$ 12 bilhões. Os pesquisadores explicam que as cifras são apenas estimativas e que, provavelmente, estão subestimadas, pois leva em conta quanto uma pessoa aposentada por invalidez ou morta deixa de produzir para o país.
Outros dados ajudam a ilustrar a fragilidade das motos. Segundo relatório do DPVAT, o seguro para proteção de vítimas de acidentes de trânsito, os motociclistas foram responsáveis por 79% dos pedidos de indenização em 2020 — ano em que a contribuição deixou de ser obrigatória, e o último levantamento foi divulgado. Foram 245.551 indenizações pagas aos motociclistas no período, sendo 52.768 para cobrir despesas médicas, 175.371 por invalidez permanente e 17.412 por morte. O DPVAT, que substituirá o modelo antigo, começa a ser cobrado no ano que vem.

Fora de circulação
Há uma frase entre os motociclistas que resume a exposição do condutor em caso de acidente: “o parachoque da moto é você”. Enquanto os motoristas de carro estão protegidos por gaiolas de metal, e passam ilesos por muitas colisões, os pilotos correm risco em qualquer batida. Até mesmo uma pequena quantidade de óleo na pista, ou areia, pode levar a uma queda.
Segundo o ortopedista Julian Machado, membro da Sociedade Brasileira de Trauma Ortopédico (SBTO), os ferimentos mais comuns ocorrem na cabeça, na coluna e nos membros inferiores. Membros superiores também podem ser afetados, dependendo do mecanismo da queda. As fraturas são comuns. Ele aponta que mesmo lesões que não coloquem em risco a vida do motociclista podem tirá-lo do trabalho, talvez, por anos.
“É muito comum ver fratura de tíbia, fêmur, calcanhar, patela. São lesões relativamente menos graves, mas podem levar a uma incapacidade de trabalho entre seis meses e alguns anos”, disse o médico. Ele aponta o aumento no número de motos nas ruas e de trabalhadores informais como um dos motivos para o crescimento das internações. No caso dos motoboys, Julian Machado também destaca que a maioria é atendida no SUS, pois não tem acesso à rede particular
“A gente até comenta que a fratura da tíbia, a mais comum entre os motoboys, é institucional. Você só vê no SUS, não nos hospitais particulares”, ressaltou. Sobre o aumento nas internações, Machado afirma que as melhores opções de tratamento hoje em dia são cirúrgicas, o que também ajuda a explicar as hospitalizações. “Então, isso aumenta também a resolutividade dos casos e diminui o tempo de incapacidade”, disse. Mas o aumento no número de motos nas ruas é o principal fator.
Para os condutores, o ortopedista orienta o uso do máximo de equipamentos de segurança possível para evitar lesões, bem como respeitar as leis de trânsito e diminuir a velocidade. O cuidado deve ser maior para quem pilota motos de grande cilindrada, com mais potência. Além do obrigatório capacete, perneiras, calças, botas, coletes, luvas, jaquetas reforçadas podem reduzir os ferimentos.
No entanto, a maioria das pessoas que depende da moto para transporte e trabalho não têm condições de comprar proteções de maior qualidade que, às vezes, chegam a ser mais caras do que as motos mais simples. A verdadeira solução é a mudança de hábito no trânsito.

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