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terça-feira, 29 novembro, 2022

Copa do Mundo: e o Catar conseguiu refrescar estádios no meio do deserto

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O primeiro desafio é evitar a chegada dessas correntes. No caso do Al Janoub, o teto do estádio foi projetado para desviar o fluxo de ar. A cor mais clara também reflete os raios solares. Proporcionar uma temperatura aceitável para jogadores e torcedores exigiu soluções criativas. 

Em dias de jogos, 40 mil pessoas estarão nas arquibancadas, e cada torcedor representa uma fonte de calor e umidade. A combinação sufocante da temperatura ambiente do Catar e o calor gerado dentro do estádio exige um sistema de resfriamento eficaz.

Torcedores nas arquibancadas conseguirão se refrescar com jatos de ar que saem debaixo de cada assento no estádio. Pequenos bocais, como os de uma mangueirinha de chuveiro, permitem que o ar se espalhe e envolva os espectadores. O fluxo é suave, diferente do jato de ar que sai acima das poltronas de um avião.

Ótimo para os torcedores. Mas como ficam os jogadores?

No futebol moderno, jogadores chegam a correr mais de 10 km durante uma partida, perdendo até 3 litros de suor. Assim, é fundamental manter-se hidratado e que a temperatura esteja em níveis aceitáveis. No ambiente úmido do Catar, é mais difícil para o suor evaporar. E o corpo pode superaquecer – o que leva a risco de exaustão pelo calor. Dessa forma, na Copa do Catar, jatos de ar frio serão lançados para dentro do estádio com o objetivo de criar uma camada fria sobre o campo.

Saud Abdul Ghani, o especialista em ar condicionado que ajudou a desenvolver o sistema, disse que o ângulo da ventilação e a maneira como o ar frio se espalha evitam que os jogadores recebam diretamente jatos de ar. O resultado é uma “bolha” de ar frio dentro do estádio, com altura de 2 metros a partir do chão e das arquibancadas, em vez de uma simples injeção de ar frio em meio ao calor. E o que acontece na sequência?

Quando o ar frio se aquece novamente, ele é succionado por um sistema na parte central do estádio. O ar é filtrado, resfriado novamente e é jogado de volta ao estádio, completando o circuito. E como o ar é resfriado para manter o estádio em um ambiente confortável? O ar quente é levado para tubos com água gelada, em conversores de calor em cada canto do estádio.

Uma vez que a água gelada absorveu o calor, ela é bombeada para um tanque com capacidade de armazenar 40 mil litros, a 3 km de distância do estádio, onde ela é resfriada para a partida do dia seguinte. Todo o sistema de resfriamento é alimentado por uma usina solar recentemente construída e localizada a 80 km do centro de Doha, a capital do Catar.

O homem que concebeu todo o sistema, Saud Abdul Ghani, disse à BBC que pretende deixar um legado para o país ao fim da Copa. Ele diz que anos de extensas pesquisas levaram a um conceito que ele chama de “conforto térmico”, criando um ambiente agradável para o maior número de pessoas. Conversas com atletas e torcedores no Campeonato Mundial de Atletismo realizado em 2019 no Catar ajudaram a desenvolver um sistema mais adequado para a Copa do Mundo de futebol.

A BBC conversou com Hajar Saleh, zagueira da seleção feminina do Catar e jogadora desde os 11 anos de idade. Ela sabe como é disputar uma partida em alto nível sob condições extremas. Para Hajar, a umidade é o maior desafio.

Nós estamos acostumadas com o calor, mas, quando você combina calor e umidade, as coisas ficam difíceis. Hajar foi uma das primeiras a jogar em dois estádios com o novo sistema de ar condicionado, o Khalifa e o da Cidade da Educação. Ela diz que o sistema faz uma grande diferença, especialmente em junho, um dos meses mais quentes do ano no Catar (a Copa será disputada em novembro e dezembro).

Os organizadores da Copa dizem que a energia utilizada no inovador sistema de ar condicionado dentro dos estádios não resultará em emissões extras de gases de efeito estufa. A justificativa é de que a eletricidade virá de uma nova usina de energia solar.

Mas a meta de garantir que todo o torneio seja “carbono neutro” representa uma ambição muito maior. A quantidade de carbono “incorporado” – ou seja, as emissões produzidas durante a construção dos estádios – é responsável por 90% da pegada de carbono das arenas, com aproximadamente 800 mil toneladas de gases de efeito estufa jogadas na atmosfera. Isso é equivalente a dar a volta na Terra 80 mil vezes com um carro, segundo a calculadora da Agência de Proteção Ambiental dos EUA.

Olhando para além dos estádios, há o impacto das viagens para a Copa do Mundo, incluindo os voos dos torcedores até o Catar. A Fifa diz que a natureza “compacta” do torneio, de distâncias curtas entre os estádios, significa que a emissão de gases no deslocamento interno é estimada em menos de um terço do que foi produzido na Copa da Rússia em 2018. As promessas do Catar de uma “Copa verde” dependem de compensação da pegada de carbono por todo o CO2 já emitido.

Não está claro até o momento como o Catar pretende atingir isso. A Fifa diz que está usando diferentes tecnologias para compensar as emissões da Copa, incluindo esquemas de eficiência energética, gestão de resíduos, energia renovável e, possivelmente, plantação de árvores. No entanto, a seleção final desses projetos ainda não pode ser confirmada.

Cada solução poderá levar décadas até se tornar eficiente em relação à pegada de carbono. Um investigação recente da BBC sugeriu que florestas usadas em programas de compensação de carbono só existiam no papel. Assim, só o tempo dirá se o Catar de fato conseguiu atingir seu objetivo de uma “Copa verde” ou se o conceito de sustentabilidade não passava de propaganda.

O país também enfrenta críticas pelo alto custo humano na construção dos estádios em que foram empregados cerca de 30 mil imigrantes. Muitos deles morreram ou ficaram seriamente feridos. Há também acusações de trabalho forçado, condições de trabalho degradantes, salários não pagos e passaportes confiscados.

O governo do Catar contesta essas acusações e insiste que, desde 2017, introduziu medidas para proteger imigrantes do trabalho sob calor excessivo, de limite do número de horas de trabalho e melhoria nos alojamentos dos operários. Entretanto, só em 2021, 50 trabalhadores morreram e mais de 500 ficaram seriamente feridos no Catar em projetos relacionados à Copa do Mundo, segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT). É uma parte do torneio fora dos campos que será acompanhada de perto.

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