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segunda-feira, 20 setembro, 2021
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Espelho, espelho meu

É durante o ritual do Barba Papa que desfruto meu momento mais íntimo. Eu com mim-eu-mesmo.

Espelho, espelho meu. Olho no olho. Fuça rústica roça fuça matrix. Marcas confrontadas com as cicatrizes de uma existência de louco e forçado aprendizado.

Gosto pra cacete do meu olhar andrógino. Aprecio os pelos galvanizados que pontificam minha hombridade. Viajo em todos os passados ridículos. Rio dos meus erros presentes. Sinto orgulho dos meus acertos vindouros. Vejo todos os “Sids” que salpicaram diversos palcos de uma única existência. Faço poses. Desfilo um laboratório de caretas inexpressivas. Decido livremente se agora é a vez da barba ganhar notoriedade ou se ainda mantenho o velho cavanhaque de boas guerras.

Curto pra caralho as primeiras rugas, pois elas ampliam minha “machozidade”. Enquanto a lâmina sobe e desce, imagino o rosto parcialmente liso sendo acariciado pelo último homem que ainda vai surgir. Sinto-me “linda”.

Cada barbear me deixa mais sexy, louco por desferir novos ataques ou, quem sabe, permitir minha carapaça pelúnica ser muito bem atacada.

Hoje o cavanhaque ganhou… mais uma vez. Faço bicos bambeesticospara dar o último retoque no bigode grisalho. Percebo que meus lábios macios voltam a implorar um novo beijo. Descubro que não compartilho “o” beijo há muito, muito tempo.

O castanho vívido do meu olhar misterioso vagueia em busca de um único ideal. Água fria. Colônia amadeirada. Última tesourada num pelo rebelde. Sinto-me “macho”.

Pronto para o último recomeço…

MOA SIPRIANO | Literatura Gay

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