spot_img
spot_img
35.2 C
Jundiaí
segunda-feira, 20 setembro, 2021
spot_img

Boff

(Conto Homoafetivo)

Anjos existem. Como descobri o óbvio? Foi simples.

Noutra tarde sem um pingo de graça, senti um par de asas luminosas a deflagrar uma surpreendente e delicada essência lavanda, capturando de vez todas as minhas atenções.

Foi um verdadeiro milagre aquela espécie de Dourado jogar seu corpo rústico no improvável banco de madeira e concreto.

E eu – euzinho! – estava lá, boquiaberto, esparramado sobre um tufo gramíneo.

Eu tentava recuperar o fôlego, enquanto selecionava CountingCrows para minha segunda caminhada de passos rápidos, descompassados, no desconhecido.

Ele, Dourado Molhado. Surtei!

Que maravilhosa indecência imaginar meus pelos paulistas emaranhados naquele liso gaúcho.

Com meu olhar boboca, inexperiente e nada discreto, eu viajava nos entalhes daquelas bem esculpidas coxas parrudas, acobreadas por milhares de alfinetes translúcidos a furtar nuances do pedaço de um sol traiçoeiro.

Subindo o foco, alucinava-me a ideia de tentar descobrir a altura do seu sexo e a circunferência exata daquele traseiro apetitoso.

Óculos escuros retirados, mão direita espantando o suor do rosto sulcado de vastas experiências acumuladas em tão pouco tempo, duas pedras de jade destruíram minha caçada, lançando-me um olhar inquisidor do tipo “e aí, o que tá pegando?”.

Eu disfarçava inutilmente minha adolescente indiscrição, furando a tela do iPod com meu dedão esfolado que não parava de transpirar vergonhas, durante a procura de uma terceira versão acústica de Round here.

Dos trocentos quilômetros disponíveis no Cassino, você tinha que se jogar todo besuntado em água, sal e libertinagem justo no meu território de passagem?

Pirei… de vez.

Nossas caras de Cérbero em nada ajudavam uma definitiva aproximação. O desejo de todo tipo de contato era mais do que palpável, porém mantínhamos o tosco enrustimento característico, embora sinais evidentes de um tesão quase incontrolável denunciassem todas as nossas vontades.

Disfarçávamos a realidade encarando raros rabos femininos que corriam de lá para cá e viceversavesso. Cena ridícula de quem ainda cultiva medo em assumir o que se é.

Sua íntima angelidade me fez tomar a decisão do segundo ataque.

Levantei-me e construí uma postura militar, de defesas desnecessárias. Trocamos forte cumprimento, além de fulminantes encaradas.

Currículos básicos expostos, disparamos em passadas largas pelas areias de um memorável corredor sem fim.

Descobrimos um local sem turistas, nem nativos. Nas espumas mornas de um mar convidativo, encenamos nossa zanga com um delicioso aquecimento, onde pelos e peles, suor e salivas, mordidas e beijos misturavam-se no centro de certeiras pegadas de dedos viris e bocas gulosas, culminando com uma fodacicarelista digna de uma cena crepúsculo.

Gozos vazados, declarações de amor, abandonamos o mar surreal para abocanharmos caminhos deprimentes. Bipolarizados, um rápido e frio “Valeu Sid!” marcou a despedida dos enrustidos.

Era patente que eu jamais reencontraria Boff, meu alado gauchalemão.

MOA SIPRIANO | Literatura Gay

Novo Diahttps://novodia.digital/novodia
O Novo Dia Notícias é um dos maiores portais de conteúdo da região de Jundiaí. Faz parte do Grupo Novo Dia.
PUBLICIDADEspot_img
PUBLICIDADEspot_img

SUGESTÃO DE PAUTAS

notícias relacionadas