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segunda-feira, 20 setembro, 2021
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Agasalho (+18)

Conto Homoerótico

Fato: Todo macho tem um preço. Realidade: Mas nem todo homem possui a capacidade de discernir qual é o seu real valor.

Descobri que posso “comprar” um Masculino humilde por duzentos reais. Eis a prova do meu crime:

Passei a manhã dessa sexta-feira na companhia de Ângela, uma grande amiga jundiaiense. Há milênios ela foi namorada do Breno, meu irmão mais velho, quando ela morou em Curitiba. O namoro neurótico dos dois acabou em poucos meses, mas a amizade saudável que construímos permanece intacta até hoje. Ela mora na Ponte São João, um dos bairros mais agradáveis e tradicionais de Jundiaí.

Curtimos boas horas conversando em sua casa, degustando uma agradável e tranquila manhã marinada em suco de graviola e gelo, alegrias e fofocas.

Aproveitamos muito bem o único período disponível para uma visita, já que Ângela trabalhava no período da tarde em uma clínica veterinária na Rua Prudente e à noite cursava faculdade em Itatiba, cidade desprezível localizada a vinte minutos de Jundiaí.

Por volta das onze-e-porcos, eu acompanhei minha amiga até o Barateiro. Logo na saída do supermercado reparei em um rapaz todo vermelho em fúria a empurrar uma capenga bicicleta de um tom amarelado-pelo-amor-de-deus-me-pinte-de-outra-cor.

Ao delirar diante dos contornos dos seus músculos debaixo de um agasalho cinza – amo corpos normais ocultos por agasalhos esportivos –, eu fiquei enlouquecido.

Despachei Ângela o mais rápido que pude, ativando discretamente uma melodia no meu celular, simulando assim uma ligação. Em seguida, pedi desculpas, afirmando que minha tia precisava de mim com certa urgência.

Deixei minha amiga próximo ao Hospital Paulo Sacramento. De lá, ela seguiria a pé até a clínica. Três beijinhos e um tchau, voltei à caça do meu Agasalho.

Foi bem fácil localizá-lo. Ele estava sentado na mureta que cerca o supermercado, mexendo na corrente da sua Duas Rodas pré-histórica. Sem cerimônia, cheguei e sentei quase grudando no coitado.

Com uma cara de T.J., perguntei se ele precisava de ajuda. Inocente até o último fio dos belos cabelos acobreados, ele afirmou que estava cansado de arrumar o câmbio daquela joça.

Mostrou-me marcas de cortes nas mãos, obra de uma bicicleta velha e tirana. O cheiro de óleo e graxa e suor e ingenuidade, somado à visão daquele par de coxas estufadas foi me tirando do eixo.

Eu não conseguia disfarçar minha excitação. Respirei fundo e perguntei para Agasalho quanto custava uma bicicleta nova. Ele respondeu rapidamente que o modelo que ele queria custava cento e noventa e nove reais na “Tico”.

“E você tem esse dinheiro?”, perguntei carregado em ironia, já intuindo o clássico retorno.

A resposta foi negativa, chorosa, de quase cortar corações, pois ele estava desempregado, tinha dois filhos para sustentar, havia um montão de gente que devia pra ele e não pagava… e mais um milhão de ladainhas que precisei ouvir com triplicada paciência.

“E se eu te desse esse dinheiro agora, você realmente compraria uma bicicleta nova?”, perguntei, sem rodeios.

Nesse momento um par de olhos castanhos cintilou curioso e ávido por maiores informações. Desconfiado, Agasalho ficou analisando meu rosto.

“Você não é daqui, né memo? Você fala cantado. Você é do Sul? Você é casado, cara?”

Sim, não sou daqui. Sim, moro no Sul, mais precisamente em Curitiba. Sim, eu falo cantado. Não, eu não sou casado, respondi, mostrando meu melhor sorriso ouro rosinha.

“Hum… e o que eu tenho que fazê pra ganhá o dinheiro? Quando a esmola é…”, perguntou Agasalho, a curiosidade gritando em torno dos seus pensamentos recatados.

“… a Santa aqui confia em você. Tá a fim de me comer… agora?”, eu disse.

“Ali na frente”, apontei uma reentrância entre um muro grafitado e a linha férrea.

Atônito com minha direta, Agasalho perdeu o controle diante da Grande Oportunidade em provar que seu pinto valia alguma coisa:

“Mas ali passa gente toda hora. Cara, sô casado. Meu, nunca comi um ômi! Mas… bom… cê me dá memo o dinheiro seu-ti-comê?”, ignorei a primeira questão e respondi a segunda ostentando para ele o meu cartão cinco estrelas.

“Eu quero que você rasgue meu cu ali, naquele lugar, agora! Foda-se quem passar por perto. É pegar ou largar”, eu vociferei, autoritário, sem convencer a mim-eu-mesmo.

Agasalho baixou a cabeça, coçando as têmporas por alguns instantes.

“Eu topo”, ele disse, “Mas com condição: eu como ocê, mas num beijo na boca e nem pego no teu pau, certo?”

Engoli a implosão de um riso, tentando manter um semblante submisso, desdenhoso. Eu estava interessado no desafio e na conquista, não em perder tempo com beijos românticos e hipocrisias encravadas.

“E tem mais… quero um… um sinal, pra garanti que cê não vai mi dá caloti”, ele disse, inseguro, patinando nas palavras caipiras. Tirei novamente a carteira do bolso e saquei cinco notas de dez.

“Tá bom pra você essa quantia como… sinal?”, eu disse, com arrogância teatral.

Agasalho nem piscou. Pegou o dinheiro e amarfanhou os papéis dentro da meia que num passado bem distante foi branca.

“Vai na frente e eu ti sigo”, ele disse, achando que assumia a situação patética. Abafei um riso desdenhoso e acatei as ordens sem maiores objeções.

Seguimos para uma casa logo após o local onde Centro e Bairro se fundem. Ao lado da casa grafitada havia uma reentrância que nos conduzia por um caminho que acabava entre tufos dispersos de capim alto.

Algumas penugens quebradiças cobriam as laterais da linha férrea abandonada. Encostei meus medos numa caixa metálica de força, tentando me esconder no centro imaginário de um mato esparso.

Como prometido, um honrado e decidido Agasalho veio logo atrás, suando em bicas. Ele jogou a velha bicicleta junto à parede da casa colorida. Caminhou até sua presa, abaixando parte do agasalho cinza, expondo o meu corretivo. Um pau flácido pendia para fora da cueca de dois dias.

“Chupa ele, deixa ele duro pra entrar no teu cu gostoso, cara!”, ele exigiu, ofegante, porém nada convincente. Um péssimo ator!

Fiquei de cócoras esperando aquela minhoca mole ser ressuscitada com meus beijos encantados. Fino e comprido, a linguiça calabresa foi tomando forma, esbofeteando minhas faces, comandado pelo jogo de cintura de Agasalho numa coreografia mambembe.

Eu observava as pessoas atravessando a linha férrea a poucos metros de onde estávamos. Ninguém parecia notar que havia dois machos representando sexo sujo bem ao lado delas.

“Deixa eu por nocê… cara”, ruminou Agasalho, angustiado para provar o seu valor machístico.

Sem proteção, nem a mínima noção de segurança, Agasalho arranjou meu corpo de quatro, cuspiu em meu rabo e penetrou-me com uma facada acurada. Havia pressa em merecer o seu dinheiro.

Agasalho segurava reticente todas as minhas laterais. Eu quase beijava as pedras ao lado da enferrujada caixa de força, onde uma caveira estilizada informava que eu corria risco de morte se permanecesse ali e fuçasse em seu interior – uma ironia, já que era o meu interior que corria todos os riscos na Vida!

Ganhei alguns tapas sem sincronia no traseiro e uma forte mordida nas costas, enquanto Agasalho copulava comigo.

“Vou gozá, vou gozá, caralho!”, ele gemeu, sôfrego, estraçalhando meu ombro direito.

Senti o jato pegajoso a entupir meu buraquinho. Agasalho tirou de supetão o pau marrom ainda duro do meu esmorecido buraco rosado.

“Limpa ele na tua boca, seu viado da porra!”, ele vociferou, exausto, encostando o corpo na parede da casa, ao lado da caquética bicicleta.

“Ai, ai… cê chupa melhor que puta do J.J., minha delícia!”

Com um ar subserviente, cabeça baixa, mordendo a língua para não rir, fingindo acatar a ordem máxima daquele macho que se achava o máximo, eu desinfetava aquele cacete pulsante com uma bela e sonora chupeta. Era bizarro o gosto acre do meu íntimo arruinado.

“Ficaí que eu vô saí na frente”, ele ordenou.

Sem coordenação motora (seria remorso?), Agasalho arrumou de qualquer jeito suas vestes e saiu empurrando sua fiel amiga. Eu fechei meu jeans, cuspi minha saliva podre nas linhas de ferro empoeiradas e segui meu Agasalho até o ponto do nosso reencontro e despedida.

Atravessamos a ponte até chegarmos no Itaú. Saquei o dinheiro prometido. Entreguei tudo conforme o combinado.

“Valeu cara. Quando quisé que eu te coma, é só vim aqui na Ferroviários de domingo, mais ou menos as dez, que eu tô dando um rolê por aqui. Por vinte contos, de repente deixo cê chupá meu pau lá no Sororoca, atrás da quadra de…”, ele declamou, radiante e carinhoso, enquanto guardava o suado valor conquistado num dos bolsos do moletom encardido. Despedimos nossas diferenças com um vigoroso aperto de mãos.

Agasalho deu um leve beliscar no meu traseiro, como seu eu fosse sua nova puta preferida. Montou em sua velha bicicleta descolorida e ganhou – aos trancos! – a Avenida São João… até eu o perder de vista.

Moa Sipriano | Literatura Gay

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