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sexta-feira, 20 maio, 2022

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(Conto Homoafetivo)

“Vamos?”

“Só um momento. Tem certeza de que estou bem? E minha gravata?”

“A borboleta-azul tá linda!”

“Estou muito nervoso.”

“Depois de tudo o que você passou, a tarde de hoje vai ser fichinha.”

“Ter bichinha?”

“Chegamos. Quer que te acompanhe até a porta?”

“Não. Não. Não. Tenho que fazer isso sozinho.”

“Quer meu lenço? Tua testa tá toda empapada.”

“E se ele não lembrar mais de mim-eu-mesmo?”

“É impossível te esquecer, seu bobão!”

“Meu bigode. Verifique meu bigode. Está bem alinhado?”

“Ai, Gzuis, me ascende! Cê tá ótimo, lindo, deslumbrante, vitaminado, Senhor Gostosão!”

“Eu sempre fui gostoso. Sempre!”

“Vai enrolar mais um pouco? Olha que faço alôka, vou lá e toco a campainha!”

“Juro que te mato! É o meu momento e tudo deve ser realizado no meu tempo!”

“E se ele não gostar do presente?”

“Depois de tantos anos, tenho certeza que o melhor presente será a tua presença!”

“Obrigado. Não sei o que eu faria sem a tua santa compreensão.”

“Depois eu aceito todos os agradecimentos. Agora… sai do carro, senão vai rolar uma Shakira a capela!”

“Tudo… menos sua Shakira!”

* * *

Não dava para disfarçar tamanha expectativa.

Ele saiu do carro, alisou umas novecentas vezes a camisa listrada e os cabelos “gel-lados”, conferiu a caixinha que repousava no oculto da mão esquerda, inspirou com severa profundidade como a sorver forças sobrenaturais e finalmente deu o segundo passo mais importante da sua atual existência.

Por instinto, mantive meus dedos bem cruzados.

Um toque. Dois minutos de angustiante espera.

A porta de todas as esperanças finalmente foi aberta.

Visivelmente emocionado, entre lágrimas esbugalhadas, o arfante dono da casa o brindou com um sorriso a iluminar oito quarteirões. Era metade da delícia de um David Beckham, onde seus cabelos pontiagudos e seus braços recobertos de mapas abstratos promoviam o tom preciso da sua bem alicerçada personalidade.

Eu me preparava para mofar dentro do carro, quando minha castanha visão foi agraciada com o genuíno casal a se aprumar numa bem-vinda varanda, estilo de fazenda.

Não deu outra. Peguei meu Lumia, travei meu braço num canto da porta e passei a registrar aquele momento histórico.

Antônio e Lamar, pra lá de tímidos e, ao mesmo tempo, eufóricos, conversavam como se tivessem passado juntos uma vida inteira. O outro David, o sobrinho, trouxe as cervejas, sorriu para os dois, beijando o alto da cabeça de cada um como a selar uma linda fraternidade com o símbolo máximo dum genuíno carinho fofístico.

Honras feitas, ele saiu de mansinho, esfumaçando lentamente seus traços másculos em passos discretos a evaporar atrás de uma magnânima parreira.

Enquanto conversavam, Lamar o tempo todo tocava nas faces de Antônio, como a pedir que o querido companheiro não vertesse lágrimas, a não ser se fossem de puro alívio.

Numa titubeante e atrapalhada troca de presentes, Lamar deu a Antônio o que julguei ser um calhamaço de antigas cartas, cujo possível conteúdo tão desejado fez Antônio desfalecer em ascendente emoção, chorando feito menino pobre diante do primeiro Papai Noel, sem manter controle algum sobre seus membros superiores.

Lamar se levantou, abraçando Antônio com ternura.

Eles trocaram afagos ariscos. Quase rolou um beijo!

O presenteado inverteu os papéis.

Retirando a caixinha de veludo do bolso da calça, Antônio recitou algumas palavras certamente poéticas ao seu grande amor, abrindo o horizonte a revelar um magnífico conteúdo.

Lamar levou as mãos à boca, apanhando a correntinha que segurava um crucifixo prateado, admirando os contornos – ah, meu olhar tão bem treinado! – de um antiquíssimo cristo em ébano, esculpido à mão.

Ufa! Finalmente rolou o Grande Momento.

Uau! Que beijo, meus senhores. Que beijo!

* * *

Ver meu próprio avô assumir sua homossexualidade aos setenta e dois foi uma das mais fantásticas emoções que pude sentir.

Acompanhar sua coragem em lutar pelo seu amado único, onde posso bater no meu peito siliconado e gritar meu orgulho em ser detetive da situação foi algo que me fez rejuvenescer e ampliar minhas energias pelo menos uns quatrocentos por cento!

Puxa vida! Quantas noites não varei em claro e café a cruzar informações na esperança de encontrar o endereço de Lamar!

Pouco importa a quantidade de erros cometidos num passado revestido de hipocrisia. Diante dos meus olhos puxados estava a prova cabal de que o Amor sempre, sempre, sempre vence… quando estamos dispostos a dilacerar nossos próprios limites.

Durante dezenas de anos, Antônio e Lamar foram proibidos de viver a Beleza, obrigados a manter casamentos de inúmeras fachadas numa falsa ideia de não destruir os “valores” impostos por uma “religião” que era o alicerce supremo de suas famílias.

Enfim, elas partiram para outras dimensões.

O caminho estava livre.

O reencontro – aqui e agora! – era inevitável, necessário, gravado em estrelas, abençoado pela Providência.

Embebidos de paciência, agonia e esperança, tenho certeza de que eles sempre acreditaram que um dia ainda ficariam juntos e saberiam como aproveitar ao máximo o terreno tempo restante.

Finalizei minha gravação com os dois abraçados entre afagos célicos – todos nós em prantos! – mesclados num só corpo, numa só carne, num só coração.

Fungando e chorando e rindo e “bobalhando”, tratei de pegar meu lenço e dar uma guaribada na minha fuça roufenha.

Liguei para o Eduardo, meu marido. Toda histérica, revelei fragmentos da linda história de amor que eu havia presenciado. Eu, Francisca Soares, me sentia a mais fodástica neta do universo!

* * *

Um milhão de letras e canções começaram a pipocar na minha alma.

Assumi que eu passaria trancada por longo tempo em estúdio. Que alegria!

Além do meu trabalho artístico, senti que minha outra missão na atual existência era dedicar boa parte do meu tempo a ajudar outros antônios & lamars a se encontrarem, se entenderem e, quiçá, serem felizes…

… para sempre!

MOA SIPRIANO | Literatura Gay

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