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segunda-feira, 20 setembro, 2021
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Futebestas

Era o final de um jogo medíocre. Meu São Paulo reverteu o placar no último segundo. Santo Rogério. Apito derradeiro. Fim de tudo. Pelo menos eu retirava alguma alegria daquele domingo patético numa fria terra distante.

Degelmann, o gremista, desvirtuado pela derrota sem sentido e pelo poder da décima latinha, partiu pra cima do meu peito felpudo, arrancando lascas da minha mata fechada, assim que eu mudei de canal.

“Que porra é essa!”, eu gritei, apalermado, sem sucesso.

“Vou arrancar os pelos do Sid Bambee!”, retrucou, em soluços etílicos, meu novo parceiro de bola e tardes de domingos decrépitos.

De repente lutávamos numa guerra infantilóide, com direito a almofadas na cara e roladas ridículas pelo bege carpete repleto de furos nicotinosos. Ríamos, xingávamos, provocávamos um e outro, numa saraivada de atitudes inconsequentes patrocinadas pela Skol.

O filho de uma égua rasgou minha camiseta preferida. Não cultivei dúvidas: acabei com a dele também. Puteados, as agressões saíram do palco meninil e ganharam o mundo adulto.
Tapas nas costas, mordidas em queixos, socos em umbigos. A brincadeira virou besteira.
Não sei como, nem entendia o porquê, a certa altura o gauchalemão meteu com toda força os dentes podres no tapete que cobria os arredores do meu coração, enquanto eu revidava de imediato a marcar a carne do seu ombro desnudo com meus pontiagudos impecáveis.

Olho no olho. Mordida por mordida. Registrávamos nossas arcadas como um símbolo de real propriedade sobre nossos corpos fedidos, úmidos, esgotados. A selvageria descambou para um doloroso abraço.

Derrotados, máscaras ao chão, abrimos um berreiro com a soltura de sensações outrora bloqueadas. Do sufocante enrosco nasceu um arrastado selo. Do demorado beijo cresceu uma dupla ereção instantânea. Dois caralhos pulsantes convocaram quatro mãos titubeantes. Punhetávamos um ao outro, enquanto mordíamos línguas opostas, mamilos inchados, queixos dilacerados.

Toda farra durou oito minutos… ou menos.

Melecados em nossas sandices aguadas, meu Azul esfregou pela última vez sua língua lisa na boca peluda do seu inseparável Bambee. Correu para o banheiro, afirmando se sentir enojado pela péssima campanha do seu time desfocado. Banho tomado, roupas emprestadas, a sala imaculada sem um vestígio sequer dos minutos de delírios peludos, nós, os Futebestas, trocamos um machístico aperto de mãos, quando o Bambee aqui finalizou o encontro dominical com um “Não se esqueça do powerporra para a reunião de amanhã. Lá pelas dez temos um encontro com aquele merda do Horácio…”.

“Delicioso Horácio”, meditei em suspiros audíveis, rebolando no corredor, assumindo meu novo lado puta.

Moa Sipriano é escritor | Literatura gay de qualidade

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