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domingo, 7 março, 2021

O manual de Givanildo

Vendedor experiente, Givanildo chegou aos 50 anos com uma festa de arromba. Havia guardado dinheiro – não muito – para a ocasião, e resolveu convidar suas amigas de vida torta. Para elas ele era o Gi – e elas pensavam que ele era Gilberto ou Gilson, menos Givanildo, nome que ele amaldiçoou desde a infância. Começou trabalhando no balcão de um armazém, onde conheceu um representante de uma fábrica de sabão. Quando fez 18 anos, tirou carta de motorista e foi ser vendedor da tal fábrica. Viajou muito, e quando precisava dormia na zona ou em pensões mais que suspeitas. Sempre acompanhado.

No dia da festa não foi trabalhar. Sozinho, acompanhado de um uísque, fez uma espécie de balanço de sua vida. Na sua conta, já havia comido mais de 150 mulheres. Quase foi enganado por um traveco, expulso do quarto de pensão na base da porrada. Concluiu que havia aproveitado bem a vida, e estava na hora de ensinar aos mais novos o que havia aprendido em suas jornadas de putaria.

Pensou em escrever um manual. Lembrou das lições aprendidas em cabarés. Das conversas com as mulheres. De ver como os inexperientes erravam na hora da abordagem. Ele não. Seu tiro era certeiro. Conversava, conversava e conversava. Sabia que quase toda puta tem filho, e quando ela tirava a foto da criança da bolsa para lhe mostrar era a hora certa de atacar. Estava no papo. Detestava pagar pelo programa, mas era generoso com bebidas e presentes. Seria isso a razão de seu sucesso nas putarias?

Quando dormia na zona, se prontificava a dar carona para quem precisasse ir à farmácia. Ou à padaria. O carro era da empresa, que também lhe dava a gasolina. Nunca quis casar – só uma vez ficou encantado com uma espanhola, a Esmeralda, que fazia ponto num cabaré e que jurava que, se alguém a tirasse daquela vida, jamais o trairia. Balançou, mas pensou e deixou a Esmeralda pra lá. Outro conselho a ser colocado no manual: não se case.

Homem que casa perde os amigos, e principalmente as amigas. E sem amigas, adeus farra.
Lembrou das conversas moles em cabarés, onde dizia à mulherada que não funcionava, que não tinha tesão. Outra coisa para colocar no manual: mulher é curiosa e competitiva. Falando assim, elas disputavam entre si quem faria Gi sentir tesão novamente. E de graça. Mas isso seria nos capítulos finais. Nos iniciais trataria de outros temas, tais como se vestir, procurar saber se a mocinha em questão fuma ou bebe, de encontrar algum detalhe (brinco, colar, cor do esmalte na unha) para elogiar. Givanildo tinha bagagem.

Às oito da noite chegaram as duas primeiras convidadas, e Givanildo deixou de pensar no manual. Quinze minutos depois, outras duas, e meia hora depois o time estava completo, com mais quatro convidadas. Avisou que a festa era temática – Uma Noite no Paraíso. Ele seria o Adão, e elas, Eva e suas irmãs. Todo mundo pelado, música na vitrola e bebida rolando solta. E em pouco tempo começou o pega-pega.

Afastaram os sofás da sala e se acomodaram no tapete macio de oncinha. Givanildo no meio de tudo, apalpando e pegando onde alcançava. Mas a ideia do manual não saía da cabeça, e passou a falar sobre ele com as amigas. Bêbadas, aplaudiram a ideia. Uma delas até se prontificou a distribuir exemplares entre a clientela. Distribuir não. Vender.

A festa avançou madrugada, e resolveram que hora de dormir. Elas na sala, ele em seu quarto. Não, disseram elas, vamos dormir todo mundo junto, E aqui no tapete. A gente coloca as almofadas, os travesseiros e todo mundo consegue. Givanildo se sentiu de fato no Paraíso. E então era a hora da serpente trabalhar. Mas quem seria a Eva? Todas queriam sê-la. Pra não ter briga, um pouco com cada uma. Depois de uma boa farra, adormeceram.
Givanildo para sempre. Seu coração não aguentou o ritmo. E quando elas acordaram e viram que ele já tinha ido dessa pra melhor, ficaram apavoradas. Chamaram uma ambulância, mas o enfermeiro constatou a morte. Era preciso avisar a polícia, que não demorou pra chegar e concluir que a putaria tinha sido grande. Mandaram o corpo para o legista, que não precisou de muito esforço para tirar suas conclusões.

Givanildo foi enterrado dois dias depois. Todas – e mais algumas – foram ao sepultamento. Na beira da cova, uma delas se lembrou da ideia do manual. Jurou que iria escrevê-lo, em memória do seu Gi. Pra matar saudade, foi à casa de Givanildo com desculpa de fazer uma faxina. Procurou por seus escritos, mas não achou nada. O manual era só uma ideia que morreu com seu dono.

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A Editora Urbem faz parte do Grupo Novo Dia e edita livros de diversos assuntos e também a Urbem Magazine, uma revista periódica 100% digital.

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