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quarta-feira, 27 janeiro, 2021

A Ford fordeu

A Ford anunciou oficialmente, nesta semana, o fim de sua produção no Brasil. Oficialmente, porque isso era esperado há dois anos. Não é culpa do Bolsonaro, nem do Doria. A Ford é uma empresa que tem dono, visa lucro e produtividade, e quando as coisas não vão bem, chega. É uma tremenda sacanagem com os compradores de carros de sua marca, mas infelizmente é assim que o mercado funciona. Em comunicado, a Ford afirmou que não vão faltar peças de reposição. Então tá.

Na década de 1960 a Renault aprontou coisa parecida. Depois de vender o Gordini e o Dauphine como alternativas de carros econômicos, resolveu ir embora e deixou todo mundo na mão. Tudo bem que o Gordini não era confiável. Seu apelido era machão – f*dia o dono todos os dias. O Dauphine ídem. A Renault voltou décadas depois e demorou para readquirir a confiança do mercado.

Quando a Ford fechou a fábrica de São Bernardo, afirmou que no mundo todo, em suas fábricas, não havia tantos processos trabalhistas como em São Bernardo. E foi clara: a culpa era dos sindicatos que viviam procurando brechas para tirar dinheiro da empresa. Era funcionário em área “insalubre”, era gente que cortava o dedo em máquinas para se aposentar. Se bem que o mais conhecido dedo cortado não aconteceu na Ford, e sim na Mercedes Benz.

A consequência é prevista. Os preços dos modelos Ford vão despencar, e em pouco tempo as peças de reposição vão desaparecer do mercado. Mas vão aparecer em outro – o mercado de peças usadas, o ferro-velho. Para abastecer esse mercado, ladrões vão roubar mais modelos Ford para desmanchar e aproveitar as peças. E como desmanche praticamente não tem controle, os donos de carros da Ford terão onde encontrar o que precisarem.

A Mercedes também deixa de produzir carros no Brasil. Mas o anúncio da Mercedes teve menos alarde, porque envolve menos funcionários. No caso da Ford, serão cinco mil demissões. E cinco mil novos pedidos de seguro-desemprego. E se o governo mantiver o auxílio emergencial, mais cinco mil novas inscrições no programa. Isso não sai de graça. Todos os demais brasileiros, inclusive os donos de carros Ford, pagarão essa conta.
Problema para as prefeituras – os prédios da Ford certamente ficarão abandonados. Provavelmente serão invadidos e depredados. E quando houver ações judiciais de despejo, haverá o Cidade Alerta e o Brasil Urgente para colocar gente chorando em frente as câmeras, dizendo que perdeu tudo. Tudo o que nunca teve. Enfim, esse é o roteiro. Todo nós nos fordemos.

ANSELMO BROMBAL
Jornalista

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