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quinta-feira, 21 janeiro, 2021

De fiasco a exemplo, Waterworld chega aos 25 anos

Apesar de não ter sido sucesso de crítica ou bilheteria, filme teve impacto positivo nas discussões sobre as mudanças climáticas

Quando Waterworld – O Segredo das Águas estreou nos cinemas americanos em julho de 1995, foi um grande fiasco. E quando entrou em cartaz na Inglaterra, apenas duas semanas depois — com status de filme mais caro já feito até então, problemas na produção, críticas de medianas a negativas e bilheteria comparativamente fraca — havia todos os ingredientes para se consolidar como um verdadeiro fracasso.

O roteirista do filme, Peter Rader, que criou a aventura pós-apocalíptica ambientada em um futuro em que as calotas polares derretem e a água cobre a Terra, disse à BBC Culture que Waterworld é, na verdade, uma das produções de maior sucesso no catálogo da Universal. Com razão, já que a atração Waterworld – A Live Sea War Spectacular tem sido fundamental para os parques temáticos da Universal Studios desde que foi aberta em Hollywood, apenas algumas semanas após o lançamento do filme.

Embora Rader, que foi substituído por David Twohy como roteirista, quando o ator Kevin Costner e o diretor Kevin Reynolds se juntaram à equipe, admita que ficou decepcionado com o tom de Waterworld, há vários elementos que ele adora na versão final do filme.
“Milhões de pessoas foram expostas ao conceito de Waterworld. O parque tem uma área dedicada ao Jurassic Park. Uma área para o Harry Potter. Uma área do Transformers. E todas essas são franquias de uma série de filmes. Todas tiveram pelo menos três, em alguns casos sete produções. Waterworld é apenas único filme. O que isso quer dizer sobre o conceito?”, diz Rader.

Mesmo como filme, Waterworld “não é tão terrível quanto alguns críticos afirmam”, diz Sorcha Ní Fhlainn, professora de Estudos de Cinema e Estudos Americanos na Manchester Metropolitan University, no Reino Unido. “Tem algumas cenas emocionantes e faz considerações importantes sobre ecologia, combustíveis fósseis e sustentabilidade na década de 1990.”

Não é à toa que Waterworld foi reavaliado pelos críticos nos últimos anos, com o jornal inglês The Guardian descrevendo o longa como um clássico cult em produção, e a revista americana Forbes afirmando que o filme foi o maior fracasso de bilheteria sem ter sido.

Mas se os fãs de cinema estão começando agora a apreciar Waterworld, por que o filme foi tão avidamente rejeitado e atacado quando foi lançado? De acordo com Yannis Tzioumakis, da Universidade de Liverpool, no Reino Unido, uma tempestade perfeita de problemas arruinou a estreia do filme. Em primeiro lugar, houve um “grande aumento no que chamamos de infoentretenimento” — combinação entre notícias e entretenimento. Isso abrange principalmente “números de bilheteria e produções cinematográficas, especialmente quando enfrentam problemas e estouram o orçamento”.

A duplicação e, em seguida, triplicação dos custos de produção de Waterworld, acompanhada pela destruição de um set multimilionário de filmagem por um furacão e a batalha criativa de Costner com Reynolds, que resultou na saída do diretor antes de a edição ser finalizada, logo se tornaram a matéria-prima perfeita para esses programas.

Além disso, a série de filmes incríveis protagonizados por Costner, que começou em 1987 com Sem Saída e Os Intocáveis, e foi seguida por Sorte no Amor, Campo dos Sonhos, Dança com Lobos, Robin Hood – O Príncipe dos Ladrões, JFK, O Guarda-Costas e Um Mundo Perfeito já havia sido interrompida em 1994. Tanto Wyatt Earp quanto A Árvore dos Sonhos foram um fracasso de bilheteria — nenhum dos dois conseguiu arrecadar nem a metade de seus orçamentos. Por volta dessa época, O Último Grande Herói e A Ilha da Garganta Cortada também foram um fiasco.

Esses blockbusters com orçamentos milionários eram a antítese do movimento indie de Hollywood dos anos 1990, diz Ní Fhlainn, especialmente com “o surgimento de novos diretores, como Quentin Tarantino”, e uma onda de “filmes emocionantes de sucesso comercial e de crítica”. Mas embora Waterworld possa ser mais interessante do que costuma ser lembrado, há dois aspectos do filme que são terrivelmente datados. A falta de diversidade é assustadora, já que o elenco é quase inteiramente branco e masculino. O tratamento que o filme oferece às personagens femininas não é muito melhor. Ní Fhlainn observa como o longa mostra repetidamente uma “compreensão limitada da complexidade feminina”.

No filme, um grupo chamado Smokers está à procura de uma garota que tem um mapa para terra firme tatuado nas costas; segundo Ní Fhlainn, a menina Enola (Tina Majorino) e sua tutora Helen (Jeanne Tripplehorn) são tratadas como “commodities a serem negociadas ou mantidas em segurança”. E todas as suas ações apenas “ressaltam a centralidade do marinheiro na trama”, que oferece Helen como isca para os saqueadores. Embora Waterworld evidencie o quão branca e masculina é a história recente de Hollywood, o filme teve pelo menos um impacto positivo nas discussões sobre as mudanças climáticas.
Em meados da década de 1980, quando começou a trabalhar no roteiro, Rader sabia que o derretimento das calotas polares resultaria no aumento do nível do mar em cerca de 10 metros, e não colocaria tudo debaixo d’água como acontece no filme. Isso obviamente teria resultado em um filme muito mais “seco” e menos impactante. E, segundo Rader, ele e Reynolds estavam certos de que queriam fazer “algo para alardear essa preocupação urgente com o planeta, na forma de filme comercial”.

Para isso, eles encheram Waterworld com uma série de referências ambientais, incluindo transformar o navio Exxon Valdez — petroleiro que colidiu na costa do Alasca em 1989 e derramou 10,8 milhões de galões de óleo no oceano — em uma base para os vilões no filme. Waterworld incluía originalmente muito mais referências ao impacto do homem sobre a Terra — como a revelação de que Dryland, o último lugar não coberto por água no planeta, era na verdade o cume do Monte Everest. A ideia original era mostrar isso com a descoberta de uma placa que detalhava como os alpinistas Edmund Hillary e Tenzing Norgay haviam escalado o pico.

O impacto ambiental de Waterworld vai ainda mais além. Costner ficou tão inspirado com o longa que comprou a Ocean Therapy Solutions, empresa especializada em separar óleo da água — processo usado para mitigar derramamentos de óleo — e que vendeu sua tecnologia para a BP após a explosão da plataforma Deepwater Horizon, em 2010. Atualmente, a previsão é que o gelo do mar Ártico, que desempenha um papel vital no controle do clima no planeta, pode desaparecer já em 2035.

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A Editora Urbem faz parte do Grupo Novo Dia e edita livros de diversos assuntos e também a Urbem Magazine, uma revista periódica 100% digital.

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