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sábado, 4 dezembro, 2021
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Simonal, o líder negro massacrado pela classe artística

“Essa música eu dedico ao meu filho, esperando que no futuro ele não encontre nunca aqueles problemas que eu encontrei, e tenho às vezes encontrado, apesar de me chamar Wilson Simonal”. Março de 1967, três anos após o “golpe militar”, Simonal compôs e cantou, sem aprovação da censura, seu Tributo a Martin Luther King: “Sim, sou um negro de cor; Meu irmão de minha cor; O que te peço é luta sim, luta mais; Que a luta está no fim; Cada negro que for; Mais um negro virá; Para lutar com sangue ou não…” Simonal, rei dos palcos, cantor, compositor, show man, era o mestre de cerimônia do programa campeão de audiência, o Troféu Roquete Pinto. O mais premiado entre os melhores do ano; naquele horário nobre desafiou a censura e fez discurso contra a opressão e o racismo.

Simonal era sucesso no Brasil, no exterior, na TV e cinema. Nos estádios lotados, liderava os melhores artistas. O show man mais rico do Brasil, negro, incomodava os “subversivos” dos seletos grupos de Ipanema e dos burgueses rebeldes da iniciante TV brasileira. A aristocracia socialista, digo artística, alimentava ódio por aquele preto que fazia sucesso (sem difamar o governo, sem falar mal do presidente). “Como pode um negro encantar plateias, ser recebido pelos jogadores da Seleção (que John Lennon tentou e não conseguiu)?’, diziam seus algozes. Nas praias privadas, conspiravam para derrotá-lo. Como fazer isso com o negão que agradava à direita e à esquerda?

Mesmo sendo o artista mais bem pago em 1970, Simonal estava falindo. Percebeu que estava sendo roubado e seus assessores de finanças ficando ricos. Simonal chamou uma auditoria e denunciou o caso na polícia. Era o “gancho” que os invejosos esperavam. Acusaram-no de “capitão-do-mato”, alcaguete, puxa-saco da ditadura.  Usaram o “Acuse seus desafetos daquilo que você é”. Simonal foi difamado sem provas, de ser dedo-duro e apoiador dos militares. Como era heterossexual e não usava drogas, foi sendo excluído no meio artístico. Simonal passou a ser “persona non grata” nos círculos “empoderados” da época. Perdia contratos e patrocínios; artistas viravam a cara para ele. Sem trabalho, não conseguia pagar suas contas. Morreu em 2000, pobre, sem homenagens na TV, mas velado pelo povo.

“Mó nu patropi, abençô po De, e boni po naturê, ma que belê, Em feverê (em feverê) Te carná (te carná), Te um fu e um vio, So Flame, Te uma nê, Chama Terê…” Simonal inventou o Patropi e o “mineirês” no samba de Jorge Ben. Era julho de 1969. Os amigos Simonal e Ben foram assistir ao show da Gal Costa, que cantou a inédita País Tropical. Simonal se encantou com a música (que estava prometida para Gal) e acabou levando Jorge (sem saber) e a sua banda Som Três para a gravadora. Fez o maior sucesso com esta gravação. Simonal, além de ser o melhor cantor e show man do país, tinha a melhor banda. A Som Três era formada por César Camargo Mariano (marido de Elis Regina) no piano, Toninho Batera, Sabá no baixo, metais e Chacal na percussão. Simonal e Elis Regina foram amigos, cantaram e fizeram sucesso dentro e fora do país.

Wilson Simonal compôs o Tributo a Martin Luther King com outro marido de Elis Regina, Ronaldo Bôscoli. Elis era a melhor cantora da época e, até hoje, é consagrada lado a lado com Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan e Billie Holiday. O amigo Simonal, o líder negro, esquecido. O negão comandou os programas de TV de maior audiência nos anos 60 e 70, com patrocínio milionário da petrolífera Shell. Na TV Tupi, apresentava o Spotlight; na TV Record, Show em Si Monal e Vamos Simbora (com Chico Anysio). Seu disco mais vendido foi País Tropical. Outros discos seus lançados no Brasil e no mundo foram: Balanço Zona Sul, Mamãe passou açúcar em mim, Nem vem que não tem, Lobo bobo, Sá Marina (que foi gravada também por Stevie Wonder) e Meu limão, meu limoeiro. A revista Rolling Stone Brasil, em 2012, colocou Simonal entre os quatro melhores cantores de todos os tempos.

Filho de mãe cozinheira e doméstica e pai operário, Simonal cantou num coral de colégio católico, quando menino. Foi no serviço militar que se aprimorou. Comandava bandas, torcidas, cantava e se tornou mestre de cerimônia. Deixou o quartel como sargento; dividiu apartamento com Erasmo Carlos e Eduardo Araújo. Com o empresário de shows Carlos Imperial começou sua carreira meteórica na TV. Era chamado de Harry Belafonte brasileiro; compôs e gravou músicas com Caetano Veloso, Bethânia, Luis Carlos Vinhas, Miele & Bôscoli, Chico Buarque, Geraldo Vandré, Toquinho, Nara Leão e outros ídolos brasileiros.

Foi artista fixo no programa O Fino da Bossa de Elis e Jair Rodrigues e na Jovem Guarda de Roberto Carlos. Em outubro de 1968, cantou no Olympia em Paris, França e em TVs da Europa. Num evento, fez discurso em defesa e apoio a artistas agredidos pelo grupo paramilitar brasileiro CCC. Fez turnê com Jorge Bem, Gal, Maysa, Milton Nascimento, Mutantes (da Rita Lee), que começou no Maracanã e passou por todas as capitais do país. Recebeu só elogios da crítica, de Nelson Motta ao jornal O Pasquim.

O contador e a “tortura”: Em 1970, Simonal constatou que ganhava muito dinheiro e que devia muito mais. Mandou auditar sua empresa e constatou prejuízos dados por Brizolla e Viviani, seus assessores de finanças. Denunciou o caso para a polícia. Ai foi acusado por críticos como se tivesse entregado seus funcionários para serem torturados no Dops (Departamento de Ordem Política e Social). A acusação não tinha provas, mas foi usada em para jogá-lo na lama e ostracismo até sua morte no ano 2000. A família de Simonal pediu, em 2002, à Comissão Nacional de Direitos Humanos apuração do caso. Arquivos do regime militar consultados – o SNI (Serviço Nacional de Inteligência) e o CIEx (Centro de Informações do Exterior) – deram “Nada Consta”. Artistas como Chico Anysio e Jair Rodrigues, reportagens da época (Caetano Veloso e Gilberto Gil) só elogiaram Simonal. Terminada a apuração, em 2003, Wilson Simonal foi inocentado e reabilitado moralmente pela OAB.

Veja https://www.youtube.com/watch?v=LsytP1xZGSo

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