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segunda-feira, 26 outubro, 2020

Quem não conhecia dona Nena…

Não havia quem não conhecesse dona Nena naquela cidade. Havia se casado aos 17 anos com Apolonio, um italiano fabricante de vinhos. Sem filhos, aos 30 já estava viúva. Apolonio havia morrido num acidente de carro na Via Dutra. Deixou para dona Nena a casa e uma chácara. Durante dez anos guardou o luto e impôs sua condição de viúva. Mas aí a vida apertou e vendeu a chácara. Apertou de novo, e ela descobriu que a pensão do IAPI (hoje INSS) não dava pro arroz. Casar de novo era uma solução, logo posta de lado ao descobrir que não havia pretendentes à altura – ou novos demais, ou velhos demais.

A casa de dona Nena era grande, tinha quatro quartos e dois banheiros. A solução estava ali. Passou a alugar os quartos para casais mais que apaixonados. Todas as tardes havia freguesia de sobra, e ela colocou limite – máximo três horas por casal. Logo arrumou o quarto dos fundos, antes da empregada, transformando-o no covil ideal, com banheiro, chuveiro, toalhas e sabonete.

E no início, todas as tardes estavam ocupadas. Para lá iam comerciantes, advogados e até o juiz da cidade, reverenciado como doutor e isento de pagar o quarto. O juiz trazia uma amante de outra cidade, que lá chegava de taxi e ia embora de ônibus. O delegado também era freguesão – duas vezes por semana no mínimo, com tudo quanto era vagabunda que caísse na sua conversa. O negócio prosperou, e dona Nena tratou de construir mais dois quartinhos no quintal, com banheiros, e sem planta na prefeitura. Não precisava. O prefeito e os fiscais não saíam da casa, sempre com amantes diferentes.

Assim, em três anos, a casa da dona Nena era o puteiro da cidade. Além das profissionais, que cobravam por hora, havia a frequência das amadoras, a maioria casada, que pulava a cerca enquanto os maridos trabalhavam. E dona Nena dava um jeito para ningúem se ver – tinha portas e cortinas na sala, no corredor e na garagem. Ninguém sabia quem era seu vizinho de quarto e de gemidos.

Quando dona Nena ficou doente, não faltaram médicos – clientes por sinal – para socorrê-la. Ficou uma semana no hospital, com a casa fechada, e voltou firme e forte. Por precaução de consciência, passou a ir às missas do domingo, onde fingia rezar e não conhecer os muitos fiéis. Fiéis clientes, ficaria melhor. Dava esmola e era vista como caridosa. Até mulheres, que não sabiam de sua atividade em prol do sexo e da gandaia, a cumprimentavam com respeito.

Quando dona Nena fez 50 anos resolveu dar uma festa. Não na casa, que ia dar muito na vista. Alugou uma chácara, contratou churrasqueiro e convidou quem podia: as putas, profissionais de fato, as infiéis donas de casa, os maridos traidores e as autoridades locais: o juiz, o prefeito, o gerente das Casas Pernambucanas e até o sacristão, que pouco tinha de cristão. A festa foi num fim de tarde, e tinha até um fotógrafo contratado por dona Nena, evitado por todos os presentes.

Houve comentários na semana seguinte ao sábado de festa e orgia. Mas não passaram de comentários. Alguns meses depois dona Nena morreu, também em acidente de carro, voltando da Capital, onde tinha ido contratar uma putas novas, que chegariam na semana seguinte. Consternação geral. O velório foi na própria casa. Não havia mais espaço para tantas coroas de flores. Muitos, que foram ao velório com as mulheres oficiais, fingiam não conhecer o lugar, perguntando onde era o banheiro e outras bobagens. O enterro foi o maior que a cidade já tinha visto. Teve até viatura da Polícia abrindo o cortejo, que terminou no cemitério distante dois quilômetros do centro.

Mas aí começou outro problema. Apareceram os possíveis herdeiros da casa, que ficou fechada e deixou o povo na secura. Uma das putas mais antigas, a Ivone, propôs tocar o negócio e entregar parte da renda aos possíveis herdeiros – uma irmã e um irmão de dona Nena, que não sabiam do negócio propriamente dito. Não teve acordo.

Já que era pra melar o negócio, Ivone esparramou que dona Nena tinha uma espécie de diário, onde anotava tudo – nome do cliente, da acompanhante, o tempo de quarto e o valor pago. Com data, ainda por cima. A notícia correu a cidade e abalou muita gente. No Bar da Subida teve uma reunião, presidida pelo juiz que comia a mulherada de graça, com ajuda do delegado, que concluiu que era preciso encontrar esse diário, antes que caísse em mãos erradas. A segunda reunião foi no Fórum, e o juiz e o delegado prometeram fazer vistas grossas a quem invadisse a casa e achasse o tal diário.

Zé do Ronco e Chico Pé de Mesa se dispuseram à busca. À noite, entraram pelos fundos, forçaram uma porta e ganharam o interior da casa. Com lanternas, reviraram tudo e não encontraram nada. Voltaram na noite seguinte para nova busca, e nada.

Soube-se, dias depois, que o diário ficara com a puta velha, a Ivone. E Ivone, já planejando sua saída daquela cidade, vingou-se como pode: arrancou páginas e páginas, e na madrugada de sábado para domingo colcou essas folhas na porta da igreja e do Banco do Brasil. No domingo de manhã, escândalo geral. E justamente o juiz, que ia às missas acompanhado da mulher, tratou de afirmar que aquele diário era falso. Não é a letra de dona Nena dizia. E sua mulher, que prestava atenção em tudo, concluiu: como ele conhecia a letra daquela cafetina? Na segunda-feira, foi a vez dela deixar o juiz e ir embora. À tarde, outras deixaram seus maridos e saíram da cidade.

No fim de semana havia muitos maridos abandonados. Os herdeiros – nessa altura oficiais – trataram de colocar a casa à venda. Foram cinco anos e doze imobiliárias para convencer um construtor a comprá-la. Homem de negócios, viu que o terreno era grande. Comprou, demoliu, e construiu um galpão. No começo alugado para uma casa de tintas, que logo faliu. E lá está, até hoje, uma Igreja Universal, procurando resgatar almas num lugar que fora o ninho do pecado.

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A Editora Urbem faz parte do Grupo Novo Dia e edita livros de diversos assuntos e também a Urbem Magazine, uma revista periódica 100% digital.

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